"O estupro, a violência sexual, o abuso misógino, sexista e tradicionalista do machismo em se utilizar da mulher enquanto objeto não é um problema apenas das mulheres, é um problema social. Quando uma mulher sofre qualquer tipo de violência, toda sociedade e suas estruturas são violentadas. Isso se aplica também a qualquer preconceito e violência contra as classes homossexuais. Precisamos combater este tipo de tradicionalismo depreciativo". – Marco Buzetto (25/11/13).

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Verecundia: Texto 3

Leia um trecho da terceira história logo abaixo. 

Aqui, o relato de uma jovem mulher como todas as outras.

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Era tarde da noite. Bom, não tão tarde. Meia noite e quarenta; mais ou menos. Quase uma hora da manhã, se bem me lembro. Estávamos saindo de uma festinha, como em todos os finais de semana. Eu era calouro na faculdade. Primeiro ano de nutricionismo. Sempre gostei de nutricionismo, alimentação saudável, dietas... esse lance mais natural, sabe. Mas sem aquele lance bitolado de vegetarianismo fanático, ou os tipos carnívoros rebeldes, sabe, que não querem nem saber de respeitar sua própria alimentação. Enfim, primeiro ano. Muita coisa acontecendo. Novos ares. Novas experiências. Até namorei um rapaz no primeiro semestre. Sei lá se tive razão em fazer isso. Deveria ter esperado, não sei. Talvez no segundo semestre. Tive boas amigas, bons professores, ótimas notas. O fato é que saí mais cedo de uma das festinhas. Não pela manhã, como era de costume. Não quis ver o sol nascer naquele dia, e fui para casa um pouco antes. O problema é que outro cara resolver pegar o mesmo caminho que eu. Ele não estava na festa com a gente. Nunca havia visto aquele rosto. Ele parou o carro, disse que queria conversar, e logo de cara respondi que não. Mas esse cara era do tipo que não aceitava “não” como resposta, sabe. Nem ele, nem os quatro amigos que estavam dentro do carro. Me cercaram em um círculo entreaberto. Me empurravam um encima do outro, e este me empurrava de volta. Uma brincadeira infantil de um mau gosto tão inacreditável quanto o que vinha depois. Me jogaram dentro do carro com uma mordaça na boca e as mãos amarradas nas costas com algum tipo de fita adesiva. Claro que eu estava chorando, gritando aos prantos. Tantas lágrimas saindo dos meus olhos que mais pareciam torrentes, tempestades tropicais sobre a selva. Um deles, depois de pedir várias vezes para eu calar a boca, me deu um soco tão forte no rosto que desmaiei na hora. Acertou no maxilar, no lado direito. Três dentes quebrados neste local, só por causa do soco de “cala a boca”. Acordei com um deles me segurando pelos braços e outros dois puxando minhas calças pelos pés. Sequer tiraram meus tênis. Puxavam minhas calças com pressa por cima dos tênis, e sacudiam minhas pernas como folhas de papel. Créditos. Sequer sabiam tirar um par de tênis. Eu gritava. Claro que gritava, desesperadamente. Freneticamente. Tão assustada e consciente sobre o que viria a seguir, que mal conseguia pensar o que gritar em socorro. Segritasse “estupro”, ninguém viria. “Assalto” então, nem pensar. Pensei em gritar “fogo”... Mas tomei outro tapa no rosto que me abriu o supercílio. Tudo girou como uma roda-gigante, uma espiral infinita de medo. Queria que me socorressem, que alguém me ajudasse. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria que ninguém me visse naquele estado deplorável de violação da minha humanidade feminina. Queria pedir socorro, mas não queria que me vissem humilhada daquela maneira. Cheguei pensar em ir para casa como se nada tivesse acontecido quando aquilo tudo terminasse, sei lá. Sem contar pra ninguém.

Rasgaram minha calcinha como cães famintos rasgando um pedaço de bife de quinta qualidade. Um puxou para um lado, outro para outro lado. Pude sentir as linhas do tecido daquela minha calcinha nova rasgando uma a uma... uma calcinha tão linda, de renda, delicada, elegante... Nunca mais tive uma calcinha como aquela. Na verdade, todos os modelos me fazem lembrar aquela noite. Noite não tão escura. Uma noite qualquer. Nada de noite sem lua, noite super escura e misteriosa que não tem ninguém na rua. Não. Foi uma noite qualquer... Mas não para mim.

Para parar meu choro, um deles disse que ia enfiar o pau na minha boca. E fez isso. Enfiou o pau na minha boca de tal maneira que pude sentir a cabeça do pinto na minha garganta. Vomitei na hora. Foi nojento. Vomitei todo o jantar e as duas taças de vinho que eu havia tomado algumas horas antes. Ele ficou com tanta raiva que me bateu com abundância. Os outros três riram, riram muito da situação, dizendo que ele havia levado um vômito no pau. Que horror. Imagine a cena, quanta brutalidade, que cena repugnante.

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