"O estupro, a violência sexual, o abuso misógino, sexista e tradicionalista do machismo em se utilizar da mulher enquanto objeto não é um problema apenas das mulheres, é um problema social. Quando uma mulher sofre qualquer tipo de violência, toda sociedade e suas estruturas são violentadas. Isso se aplica também a qualquer preconceito e violência contra as classes homossexuais. Precisamos combater este tipo de tradicionalismo depreciativo". – Marco Buzetto (25/11/13).

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Verecundia: Texto 4

Leia um trecho da quarta história logo abaixo.

Aqui, o relato de uma mulher que não se esquece.

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Não faz muito tempo. Na verdade, para mim parece que foi ontem. Todos os dias são parecidos com aquele dia. Sempre que fecho os olhos enxergo a mesma cena, sem escapatória; ouço meus gritos, meus gemidos altos de dor. Vejo em terceira pessoa, fora do meu corpo, meu próprio sofrimento.

Saí de casa naquela terça-feira a tarde, como sempre fazia. Era de costume eu caminhar no final da tarde. Sempre as terças e quintas-feiras, e também aos sábados e domingo pela manhã. Uma horinha de caminhada era o bastante. Quando estava inspirada, duas horas sem intervalo. Nada que uma boa música no fone de ouvido e uma garrafinha de suco de laranja não resolvessem. Meu kit de caminhada.

Às terças-feiras, eu caminhava sozinha. Minhas amigas não podiam ir comigo, pois tinham outros compromissos neste dia. Era rotina, no mínimo há dois anos, se bem me lembro, sem pecar sequer um dia.

Em uma destas terças-feiras, fui pega desprevenida por uma pessoa que pedalava rápido ao meu encontro de bicicleta. Foi como um relâmpago. Na verdade, ele havia passado por mim unas três vezes; eu que não reparei. Sempre na contramão a minha direção. Quando chegou perto na quarta vez, me deu um golpe tão forte no nariz que desmaiei no mesmo instante. Só me lembro da mão dele chegando próxima ao meu rosto, cada vez mais perto, e uma dor nauseante que me levou ao chão. Não era tarde da noite. Nada disso. Final das dezenove horas no horário de verão; final claro de tarde. Pensei que estas coisas só acontecessem na calada da noite, na madrugada, em bairros violentíssimos, em países miseráveis. Mas não. Aconteceu ali, comigo... Nem vinte horas ainda não eram. Fui arrastada para trás de um tapume. Bom, sei que fui arrastada pois desmaiei na calçada, e quando acordei, estava toda ensanguentada da cintura para baixo, com o nariz quebrado, atrás desse tapume. Minha calcinha rasgada, ainda nos meus tornozelos. A calça jogada longe. Minha camiseta enrolada amarrava minhas mãos juntas em minhas costas. Minhas pernas esfoladas no cimento. Dezenas de pedrinhas ainda coladas e meu corpo pela pressão que meu peso exercia sobre elas. Meu rosto doía muito. Muitas marcas de mão em minhas bochechas. Devo ter tomado vários e vários tapas na cara. Quando fecho os olhos para dormir, vejo esta cena se repetindo e repetindo. Durmo a base de remédios mais fortes a cada mês. Quando acordo, de instinto levo as mãos à minha cintura, checando se minhas roupas ainda estão lá. Quando entro no banho, tudo certo até ter de lavar a cabeça. Ao fechar os olhos, aquela cena agressiva novamente, em fragmentos. Não consigo me lembrar do rosto do estuprador, mas me lembro nitidamente dos gemidos. Um filme de terror oitentista. Sinistro. Tão real ainda hoje como no dia em que aconteceu.

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