"O estupro, a violência sexual, o abuso misógino, sexista e tradicionalista do machismo em se utilizar da mulher enquanto objeto não é um problema apenas das mulheres, é um problema social. Quando uma mulher sofre qualquer tipo de violência, toda sociedade e suas estruturas são violentadas. Isso se aplica também a qualquer preconceito e violência contra as classes homossexuais. Precisamos combater este tipo de tradicionalismo depreciativo". – Marco Buzetto (25/11/13).

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Verecundia: Texto 5 (último)

Leia um trecho da quinta história logo abaixo.

Aqui, o relato de uma mulher que não quer que os outros se esqueçam.

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Tudo aconteceu muito rápido. Eu era jovem: vinte e sete anos. Mulher jovem e bonita como todas as outras. Último ano de faculdade. Cursava jornalismo. Me formei. Porém, uma semana antes de completar o curso, já com a data da formatura marcada, fui agredida dentro do prédio da faculdade. No começo, não pensei que fosse sofrer abuso sexual. Infelizmente, pensei que fosse apenas um assalto e uma agressão física. Digo “infelizmente”, pois, eu realmente não esperava ser estuprada. Não me vinha à cabeça que algumas pessoas ainda eram capazes de cometer estupro, ainda mais em um ambiente universitário. Durante o assalto, apeie muito. Meu rosto ficou desfigurado, tamanho o inchaço. O sangue escorria da minha boca, do meu nariz; enxergava tudo desfocado, embaçado por conta dos socos e tapas que o agressor me dava a todo o momento. Os tapas e socos duraram pouco mais de três minutos, mas foram o suficiente para acabar comigo. Ele disse que queria o dinheiro, o celular e tudo mais de valor que eu tivesse. Uma cena tensa, repulsiva, totalmente desnecessária. Era só anunciar o crime que eu entregaria tudo. Não precisa tanta violência, ainda maior que o próprio assalto. Mas, não contente, continuou a me bater depois que viu minha carteira quase vazia. Final de mês; eu não tinha muito. Cerca de cem reais para voltar de taxi para casa e passar o fim de semana. Quase nada. O indivíduo ficou com tanta raiva que me dava pontapés e socos ainda mais fortes. Tive o fêmur da perda direita quebrado, de tantos chutes que levei. O pulso direito também, quebrado em três lugares, tentando me defender.

Depois de me bater ainda mais forte, descontente com o assalto que não lhe rendia muito dinheiro, comigo já quebrada por fora e estirada ao chão, ele resolveu ganhar um pouco mais de outra forma. Eu estava de saia, uma saia longa, rodada, linda, que havia ganhado da minha mãe como presente de aniversário há dois meses. Deve ter despertado ainda mais o fetiche de garotinha colegial no desgraçado. Claro, com o mercado pornográfico, a televisão e a sociedade alimentando grotescamente alguns estereótipos femininos, qualquer peça de roupa se transforma em um convite para o sexo violento. Cheguei a me sentir culpada por estar usando aquela saia justo naquele dia. Ele arrancou minha calcinha como um leão rasgando a pele de um animal abatido, procurando carne fresca, sentindo o cheiro de sangue quente. Comecei gritar. Urrei por socorro. Supliquei religiosamente para que ele não fizesse aquilo. Nada disso adiantou. Me deu outro tapa no rosto, sempre muito forte, e tapou firme minha boca. É impressionante o fato de eu não ter encontrado forças para tirar a mão dele da minha boca. Estava tão concentrada em fechar minhas pernas, que perdi as forças nos braços. Mas também não adiantou. Eu não queria me entregar, mas ele foi muito mais forte. Senti o peso sobre mim. O barulho do cinto dele se abrindo e batendo no chão: barulho metálico. Cuspiu em uma das mãos, passou no pinto e enfiou ele dentro de mim. Senti uma dor vergonhosa, aterradora. Pronto. Eu estava quebrada por fora, por tantos socos, chutes e tapas, e agora por dentro. Feriu meu corpo e minha alma. A partir dali, eu já não existia enquanto ser humano, enquanto mulher. Era apenas um objeto, um deleite, um gozo repulsivo de um sádico.

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